Um dia, na remota década de oitenta, creio que por volta de 1986, por aí, dois amigos diletos, na verdade, duas “feras”, Augusto Saraiva, de quem tirei importantes lições sobre o futebol e sobre a vida, ele sabe disso, e o não menos talentoso Antônio Carlos “Itaibó”, me convidaram para levarmos juntos à cidade de Alagoinhas, para testes na Catuense, então, em plena ascensão, uma promessa do nosso futebol, que havia se destacado ao longo de um belíssimo Campeonato Municipal e que tivera ótima participação na Seleção de Ipiaú no Intermunicipal daquele ano, e que já estava sendo sondado por alguns dos outros grandes clubes do futebol baiano.
Para dizer a verdade, nem os próprios criadores desta impressionante competição tinham a noção exata da grandeza que ela viria alcançar nos dias de hoje, sobretudo no que tange a revelações de valores, à comprovada integração entre as cidades de quase todo o interior do Estado e, o que é mais importante, na festa que vem proporcionando a centenas de milhares de torcedores por toda a Bahia. É notório que se dependesse de lucratividade para se auto-sustentar naturalmente que não teria o sucesso que até aqui conseguiu, é só lembrar que desde a época em que era apenas torneio, a Federação Baiana de Futebol, exceto em algumas raras oportunidades, vem bancando, não de forma adequada, mas, pelos menos, dando a necessária sustentação para mantê-la viva. Sinceramente, não me recordo de um ano sequer em que não tenha acontecido o Intermunicipal, desde a sua criação. Alguns anos com sucesso pleno, outros altamente deficitários e empobrecidos, mas nunca deixou de acontecer, esse crédito, com certeza, a FBF tem com todos nós.
JOÃO GRILO, CRAQUE E EXEMPLO DENTRO E FORA DO CAMPO!
Nas décadas de sessenta e setenta, Ipiaú produziu a maior e mais requintada safra de zagueiros de sua história. Quem viveu a fase áurea do nosso futebol sabe do que e de quem estou falando. Os nossos times renomados daqueles tempos, Independente, Ipiaú, Vasco, Cometas, Fluminense, Estudantes, tinham em seus elencos, para cada posição, pelo menos dois beques de estilos idênticos, e qualquer deles que fosse chamado a jogar, esbanjava talento e impunha investidas diárias de dirigentes de outras cidades da região, e até de times profissionais da Bahia, que tentavam incessantemente levá-los embora, às vezes até conseguindo, mas depois de muitas tentativas, e sob promessas mirabolantes, exemplos de Everaldo, para o Itabaiana de Sergipe, e do meu personagem de hoje, que figurou no rico e importante Flamengo de Jequié, sem falar em alguns outros, que não resistiam às boas propostas. Hoje me ocorreu falar de um deles, seguramente, um dos mais refinados, dos mais completos, do tipo clássico, que tratava a bola com a importância que ela sempre representou para este jogo mágico, e ao adversário, como se seu aliado ele fosse, daí porque advertência pra ele, por prática de violência, jamais ocorria, na verdade, não me lembro de tê-lo visto sendo admoestado por usar qualquer recurso que não fosse o lógico, o desarme na bola, sem atingir seu oponente. Não era preciso, ele jogava sempre limpo, Sabia demais! Ednaldo Freire Santana. Pois é, trata-se de João Grilo, um dos maiores quarto zagueiros que vi jogar! Começou em 1963, no Grêmio de Ipiaú. Tornou-se uma lenda. João Grilo não só foi talentoso dentro do campo. Depois que parou, tocou sua vida com a maior dignidade, com absoluta correção, e com uma leveza sem precedentes. Ah João, meu eterno quarto zagueiro, lá de cima, Juju, Cobrinha, Hildebrando, Sandoval Bonfim, Zenildo Borges, Odilon Costa, Dr. Geraldo, todos esses “bambas”, e mais Betinho, Jasson, Caribé, Gino, Mundinho, e outros que também se foram, todos continuam batendo palmas pra você, como poderiam estar lhe aplaudindo o mundo inteiro, se conhecimento tivesse da tua grandeza. Justíssimas ovações, porque você foi e é grande! FOTO: João Grilo é o sexto em pé). Clique na foto para ampliar.
O Independente das décadas de 60 e 70, por conta do prestígio até ali adquirido, tinha a responsabilidade de sempre se apresentar em qualquer que fosse a competição, amadora ou oficial, com a “essência” do futebol ipiauense, com o que havia de melhor e mais lapidado em termos de valores individuais. Evidente que quando surgia informação dando conta do surgimento de algum craque, e que tivesse ao alcance do poderio de sua diretoria, não havia dúvidas, seria contratado. Corria o ano de 1966, e falava-se maravilhas de um atacante ainda jovem, de apelido meio estranho, Gagé, que era artilheiro do Campeonato Municipal de Itororó, e que já estava sendo cogitado pelas principais seleções amadoras do Sul do Estado, inclusive, a de Itabuna, que até ali era a maior detentora de títulos do então Torneio Intermunicipal, sem falar no Leônico, time profissional da Bahia, que acabou conseguindo levá-lo por um tempo, o suficiente para ele ajudar a conquistar o título estadual daquele ano. Habilmente o Independente tratou de arranjar um amistoso com a Seleção de Itororó, sob a alegação de estabelecer um suposto entrelaçamento entre os dois municípios, contudo, na verdade, o confronto festivo serviria, segundo pensamento dos diretores rubro-negros, para se conhecer o potencial da jovem promessa. Realizado o jogo, o Independente perdeu e o endiabrado e excepcional Gagé fez três dos cinco gols da goleada imposta pela seleção local por 5×1, respondendo plenamente à expectativa dos dirigentes do “vermelho”. Pronto. Mesmo em apenas um jogo, Gagé confirmara tudo que se noticiava a seu respeito. Era “fera”, fazia gols com impressionante facilidade, era um centro avante do tipo rompedor, “valente”, habilidoso, difícil de ser contido. Não demorou para que os espertos Jaime Cobrinha e Julival Ferrari conseguissem o atacante. Gagé veio e debandou a fazer gols, de tal forma, que ficou de vez, e no período que passou aqui, uma vez mais chamou a atenção dos principais clubes da Bahia, com tamanha intensidade que acabou se transferindo para o tricolor baiano, onde foi artilheiro nato em campeonatos nacionais, ganhando notoriedade e fama, tornando-se referência nos quatro cantos do País. Para se ter uma idéia exata do interminável futebol de Gagé, mesmo após ele retornar a Ipiaú, cidade que ele escolheu para morar com seus familiares, de dever cumprido, integrou com brilhantismo a Seleção de Ipiaú, e conquistou seu último título como jogador, campeão do Intermunicipal de 1977, formando dupla de ataque com o extraordinário e inesquecível Jorge Pato. Deus não deu a Gagé apenas o talento para jogar futebol. Deu-lhe, acima de tudo, o dom de saber criar os filhos, todos os cidadãos de bem. Meu amigo e irmão Antônio Everaldino Passos, Gagé, em todas as grandes conquistas do futebol de Ipiaú você tem que ser reverenciado. Meu profundo respeito e reconhecimento pelo que você foi e representou para toda uma geração do futebol de Ipiaú!
Obrigado Gagé!
Como bom brasileiro, o futebol está no meu sangue. Aliás, desde os meus primeiros passos, ainda em Ibitupã, onde fui criado, o meu sonho maior sempre foi me tornar profissional e vestir a camisa de um dos principais clubes deste País. A princípio, não tinha preferência por cores nem por nomes, bastava que fosse do Rio de Janeiro, e todo mundo sabe que o futebol carioca foi durante décadas a força do futebol brasileiro. Mas, no fantástico ano de 1958, que eu reputo o mais significativo para todos nós, pela conquista histórica na Suécia, influenciado por uma decisão carioca entre Flamengo Vasco e Botafogo, um “super campeonato”, me tornei vascaíno, pelo time que o Vasco tinha Ita, Paulinho, Belini, Orlando e Coronel, Écio e Roberto Pinto, Sabará, Vavá, Valdemar e Pinga, além de outros, claro, e que acabou campeão daquele ano, depois do chamado “expresso da vitória”, de poucos anos antes. Pois bem, daí em diante passei a sonha em jogar no Vasco, e porque não? Afinal, sonhar eu podia. Me via quase sempre num Maracanã lotado, estrela vermelha no peito, ao lado dos ídolos famosos, coisas assim, muito próprias nos adolescentes. Mas eu não sabia o mais importante. Que dentre outras coisas, era preciso ser craque, e eu era apenas mediano. O que eu jogava era muito pouco se comparado ao que era necessário. Daí, o sonho foi se desfazendo até ruir por completo. Ainda não tinha dezoito anos e vim de Ibitupã para jogar no magnífico Independente, onde fiquei durante cinco anos e fui tri-campeão de Ipiaú. Quase não acreditei quando fui chamado para um amistoso contra o Flamengo de Jequié. Fui como titular e acabei fazendo um dos gols da vitória do Independente por quatro a um. No dia seguinte, ao meio dia, atento a um programa de esportes apresentado pela Rádio Baiana de Jequié, ouvi o genial Evandro Lopes comentar individualmente o time ipiauense, e quando chegou ao ponta esquerda, meu caso, surgiu o primeiro elogio dirigido a mim por um cronista, e que cronista! “e Orlindo, autor de um dos gols da surpreendente goleada, é jogador de grandes virtudes”. Foi demais! Chegou aos meus ouvidos como se tivesse vindo de Rui Porto, de Armando Nogueira, de Orlando Duarte. Deus te abençoe, seu Evandro!



Em meados de maio de 1967, numa manhã chuvosa de domingo, um amigo me convidou para juntos assistirmos na tarde daquele dia, um clássico do futebol regional, em Jequié. É que Flamengo e Jequiezinho disputariam num jogo só, no Aníbal Brito, o direito de passar para a grande final do campeonato jequieense daquele ano. A princípio relutei em aceitar o convite, temendo que também em Jequié o temporal fosse intenso e comprometesse a decisão, mas, por outro lado, não era sempre que se podia ter a oportunidade de ver frente a frente dois times daquela grandeza disputando uma classificação para chegar à condição de finalista de um campeonato empolgante, mesmo em campo molhado, acrescendo-se o fato de que os nossos vizinhos representavam sem contestação a essência do futebol amador do Estado. Seria, portanto, gratificante. O simpático estádio Aníbal Brito apanhou um grande público, claro, que desproporcional ao seu tamanho, o que justificava certa preocupação, pois se comentava que nos grandes jogos ele tremia e causava pânico aos torcedores, contudo, nem isso tirou o entusiasmo dos quase três mil torcedores presentes, exprimidos entre as pilastras de escoras, feitas a capricho, diga-se, mas comprometedoras. Havíamos percorrido o trajeto até Jequié em duas horas de ônibus, e entramos no estádio aos empurrões. Os retardatários como nós, se acotovelavam, e tivemos que nos acomodar nas partes inferiores, já que as superiores estavam totalmente lotadas. Os times já estavam em campo e à distância a gente ia reconhecendo Maíca, Dilermando, Tanajura, Zé Augusto, Carlinhos, Paiva, Edmilson, Marquinhos, e outras “feras” do Flamengo, enquanto que do outro lado víamos Zé Souza, Geir (de Urbano), Carlos Ney, Vando, Paulinho, Pedrito de Ipiaú, um zagueiro excepcional, (que havia sido contratado por Radamés Lobão para aquela decisão), entre outros, do excelente Jequiezinho. Seria uma partida histórica. Não tinha como ser diferente. Eram muitos craques juntos! Recordo-me de lances geniais daquele jogo impressionante, mas um deles me marcou e até hoje não me saiu da memória. O placar foi aberto pelo Flamengo, com Tanajura, ainda no primeiro tempo. O Jequiezinho empatou com Vando, no início do segundo, e o empate insistia, quando nos derradeiros minutos, Maíca, um “monstro sagrado” da bola, naquela tarde, como sempre, iluminado, com um toque suave, colocou Dilermando em ótima situação, e o craque, como se jogar futebol fosse a coisa mais simples do mundo, tocou por cima do ótimo Zé Souza, e fez o gol da vitória do Flamengo que, com o resultado, foi para a final e acabou campeão, aliás, confirmando a enorme expectativa. O magnífico Flamengo, com a conquista, abriu novos horizontes e enriqueceu ainda mais o brilho e a pujança do belo futebol de Jequié daquela década. Finalmente, felizes e recompensados pelo que vimos, quando saiamos do estádio em meio ao clima de intensa euforia da torcida flamenguista, dei um tapinha nas costas do meu amigo, e disparei: “Poxa irmão, se não fosse você, eu teria perdido um dos maiores espetáculos que o futebol amador da Bahia já produziu”. E viemos embora de alma lavada.
Nas minhas andanças, nas leituras que fiz, naquilo que ouvi, no que até hoje tive acesso e pesquisei a respeito de futebol, e atento a todas as análises feitas com freqüência nas redes de tv’s deste país, pelos mais festejados comentaristas esportivos da atualidade, durante as competições nacionais, a cada dia me convenço mais de que nunca houve muita diferença entre o que “eles” dizem saber em relação ao que sabemos. Posso seguramente afirmar que a imprensa esportiva da Bahia, e aí não me prendo apenas a Salvador, me estendo a importantes centros do interior, como Jequié, Ipiaú, Itabuna, Ilhéus, Vitória da Conquista, Feira de Santana, que igualmente reúnem profissionais do mais alto gabarito na área, nunca ficou a dever nada a outros centros considerados mais adiantados e inteirados como, Rio de Janeiro e São Paulo, que são, indiscutivelmente, referência nacional no esporte. A diferença é que eles estão constantemente na mídia, são vistos com freqüência, e ganham credibilidade nacional por conta da medida da audiência da emissora a que estão ligados. Permitam-me comparar: o que Paulo Roberto Falcão e Walter Casagrande, da TV Globo, sabem mais do que, por exemplo, Valdemir Vidal e o bom e velho Evandro Lopes, de Jequié, e Gil Pereira, de Ipiaú? Qual a diferença, entre o que conhecem Luciano do Vale e Nivaldo Prieto, da Bandeirantes, José Carlos Araújo e Edson Mauro, da Rádio Globo, comparado ao que sabem os ótimos Taffarel Miranda e Tadeu Santana, de Ipiaú, e Vando Pereira, de Jequié? Tenho que fazer citação honrosa aos talentosos e notáveis Marcelo Silva, de Ipiaú, e Souza Andrade, “nosso”, mas, hoje “emprestado” a Jequié, sem dúvidas, dois dos mais completos repórteres esportivos que conheço, para não citar outros tantos.
Depois do jogo da discórdia, houve um longo período em que as duas cidades se entreolhavam desconfiadas. A própria Federação Baiana, quando da confecção das tabelas para os torneios intermunicipais dos anos subseqüentes, tratou de evitar que as duas cidades participassem numa mesma chave, temerosa de que os desentendimentos tivessem seqüência, sobretudo em função do posicionamento de políticos influentes à época que, sem o mínimo conhecimento dos verdadeiros motivos que deram origem aos contratempos, portanto, sem nenhuma aptidão, interferiram na decisão e endossaram a eliminação de Ipiaú, sem sequer se darem ao trabalho de pelo menos ouvir a versão da Federação, que era, na verdade, um cabide de emprego de seus afilhados, e principalmente nós, de Ipiaú, pagamos um preço gigantesco por tudo isso, primeiro, porque indiscutivelmente o comércio de Jequié sempre foi extremamente significativo para nós, recorríamos a essa cidade co-irmã para quase tudo, depois, e o que nos fez muita falta, perdemos em parte uma longa e agradável afinidade, notadamente do ponto de vista social, porque as duas sociedades se visitavam amistosa e frequentemente, e por força daquela animosidade, pelo menos durante bom tempo, criou-se certa distância entre os dois povos.
Custou para que se tivesse a idéia de realizar um jogo entre as duas seleções, que pudesse servir de reconciliação. Aí, entrou a experiência de desportistas sérios das duas cidades, e os senhores Evandro Lopes, que reputo um dos maiores comentaristas esportivos que tive a oportunidade de ouvir, além de desportista nato, mais Lobão, Maneca, o então jovem Tom, Wilson Novais, Dr. Virgílio Tourinho, entre outros, por Jequié, e Julival Ferrari, Guanabara, Jaime Cobrinha, Hildebrando Nunes e Edval, por Ipiaú, que trataram de dar um basta naquela situação incômoda, promoveram o chamado jogo da amizade e colocaram as coisas em seus devidos lugares, para o bem geral, e nos dias atuais, graças a Deus, desfrutamos de um entrelaçamento tamanho, que quase ninguém mais lembra do episódio.
Quero dizer à minha querida gente de Jequié, que às vezes me arrisco a citar nomes, e por conta disso, corro o risco de cometer injustiças. Que me perdoem aqueles que por lapso não são citados. Um forte abraço.
O futebol de Ipiaú vivia um grande momento. Vindo de uma campanha fantástica no então Torneio Intermunicipal em 1968, tudo levava os ipiauenses a acreditar na conquista em 1969. O time ipiauense era uma espécie de seleção regional. Havia conseguido manter a base do ano anterior e contratado alguns reforços renomados, como Bueiro, Gino, Bidinho e outros. A euforia do torcedor se misturava à enorme expectativa dos dirigentes, e a cidade estava em polvorosa. Enfim, Ipiaú já podia sonhar com o título, até porque, havia passado muito bem pela primeira fase e tinha-se ótimo prenúncio. Pois bem. Ocorre que na seqüência da tabela daquele ano, a Seleção de Ipiaú teria que encarar a fortíssima Seleção de Jequié, em dois jogos decisivos no sistema ida e volta. No primeiro confronto, exatamente no dia 13 de Março de 1969, no Estádio Pedro Caetano, deu Ipiaú, dois a zero, com as duas cidades protagonizando um espetáculo grandioso, mas mesmo perdendo, pelo que jogou, Jequié deixou muita gente preocupada em relação ao próximo jogo. Oito dias depois, com o Aníbal Brito completamente lotado, Ipiaú vencia por um a zero, mas em dado instante, teve início um tumulto generalizado entre as duas torcidas, que culminou com agressões inconseqüentes, inclusive a algumas senhoras de ambas as sociedades e o envolvimento dos vinte e dois jogadores, mais os reservas e dirigentes das duas equipes, e que acabou gerando a suspensão da partida por parte da arbitragem, para posterior decisão da FBF. Há quem afirme que tudo começou por conta da insensatez de um determinado torcedor ipiauense, que teria provocado alguns torcedores adversários, mas, na verdade, não se tem informação exata de como aquela “tragédia” teve início. O fato é que, após um processo de apuração dos fatos, promovido pela mentora maior do futebol do interior da Bahia, Ipiaú foi penalizado com a eliminação, fato que causou espanto na gente de cá, e Jequié prosseguiu na competição, inclusive, vindo a conquistar o título daquele ano. Claro que ficaram rastros, permaneceram manchas, durante algum tempo. Ipiaú olhava atravessado para Jequié, e vice versa. Os que faziam futebol com decência nas duas cidades, lutaram bravamente por uma retomada de posição. Felizmente, pelo menos em parte, conseguiram. Hoje, quase quatro décadas depois, mesmo não sabendo em que se baseou a Federação para adotar a medida, acho que mais uma vez “Deus escreveu certo por linhas tortas”, dando a Jequié à oportunidade de mostrar ao Estado e ao Brasil até, um time fantástico.
Toda semana, o blog tem o privilégio de publicar a crônica de um dos mais talentosos cronistas esportivos da Bahia, Orlindo Lopes. Ele mora em Ipiaú, mas conhece bem a história do nosso futebol. Por isso, relata fatos históricos nesta página eletrônica, brindando-nos com seus textos.

Sem qualquer dúvida, Jequié sempre ocupou lugar de destaque no cenário esportivo do Estado da Bahia. Boa parte da grandeza e da qualidade do futebol amador da Bahia brotou das terras jequieenses, sobretudo nas décadas de cinqüenta e sessenta, quando essa importante cidade, a meu juízo, produziu a maior safra de valores do futebol dessas bandas, a ponto de formar um belíssimo time, que acabou conquistando uma série de torneios intermunicipais, e detendo a hegemonia interiorana por bom tempo, o que acabou impondo sua profissionalização, vindo a disputar campeonatos empolgantes, encarando times como Bahia, Vitória, Fluminense de Feira, Leônico, Galícia, entre outros, valendo ressaltar que, na estréia, bateu o tricolor de aço por três a um, no charmoso e imorredouro Aníbal Brito, com uma atuação memorável de Edmílson, Tufú, Carlinhos, Zé Augusto e Paiva, Maíca e Pelé Cotó, Zé do Bife, Tanajura, Dilermando e Marquinhos. Posso ter me confundido na escalação, mas seguramente essa era a base daquele timaço. Gostaria de ressaltar ainda, nomes notáveis como Mauro, Bronzeado, Vavá Bagana, Bajara, Bara, Vando, Deteleão, Hugo, e pedir desculpas a algum que ainda esteja entre nós e que, por falha da memória, deixei de citar.
Estou me reportando sobre esse jogo, porque não me recordo de ter visto outro igual, o futebol do interior não pode proporcionar outro espetáculo daquela envergadura. Era um privilégio assistir Maíca passear em campo e tratar a bola como se coisa dele ela fosse, tendo a completar seu trabalho, o extraordinário Pelé Cotó, Tufú, Carlinhos, Zé Augusto e Paiva, formarem um quarteto defensivo imbatível, e na frente, o maestro Dilermando cuidando de criar, (e como criava!), alternativas para um ataque arrasador, formado pelo franzino Zé do Bife, o artilheiro Tanajura e, para mim, o maior ponta esquerda amador de toda a Bahia em todos os tempos, Marquinhos. O goleiro, esse, com certeza foi acometido de um mau que sempre assolou este País, a injustiça. Edmílson, sem qualquer favor, foi, ao lado de Betinho, um dos maiores goleiros da nossa história, e poderia ter atuado em qualquer clube do futebol brasileiro.
Enfim, sem pretender traçar qualquer paralelo, este time de Jequié, que, na verdade, era o Flamengo, foi uma das mais gratas aparições aos meus olhos naqueles tempos.
Se me permitirem os meus amigos de Jequié, e se me perdoarem os que praticam hoje em dia, vou continuar contando o que sei a respeito daquele futebol inesquecível, lindo e saudável, com quem tive rápida e gratificante convivência.
Um abraço fraterno aos meus irmãos de Jequié.
As conquistas do futebol brasileiro, a partir de 1958, quando ganhou o primeiro mundial na Suécia, impulsionaram o esporte em todo o País, de forma assustadora. As confederações, as federações e, consequentemente, as ligas interioranas, ganharam impulso gigantesco, e isso acabou por gerar o surgimento de valores em quantidade incalculável. No nosso Estado não foi diferente. Na nossa região, então, despontaram jogadores que se notabilizaram, e muitos deles se tornaram profissionais e se vincularam aos principais clubes do Brasil.
Se de um lado Ipiaú gerou Gilberto, Noelito, Humberto, Pedrito, Creosmar, Cardoso, Cabinho, Izidro, João Grilo, Everaldo, Caçote, Daú, e tantos outros, do outro lado, Jequié produziu Dilermando, Maica, Paiva, Edmilson, José Augusto, Pelé Cotó, Zé do Bife, Tanajura, Mauro, Marquinhos, Vando, Hugo Vitamina, e usou-se muito naquela época, mais precisamente nas décadas de sessenta e setenta, uma espécie de intercâmbio, o que em muito contribuiu para a pujança do futebol destas duas cidades.
É verdade que em determinada ocasião, por conta de alguns jogos que praticamente definiam uma suposta supremacia de um município em relação ao outro, houve alguns contratempos, naturais evidentemente, e os mais afoitos trataram de, em decorrência desse fato, criar uma incômoda rivalidade, que ao contrário de fortalecer, enfraquecia temporàriamente a qualidade indisfarçável que as duas cidades possuíam, tanto em relação ao esporte de um modo geral, quanto à convivência salutar e decente entre os dois povos.





